Com a obra ‘Pesca Seca’, Adrianna EU é umas das artistas que apresenta seu trabalho na 2ª Trio Bienal – Bienal Tridimencional Internacional do Rio de Janeiro, que expõe obras de cerca de 50 artistas brasileiros e internacionais em dois lugares da cidade carioca, na Cidade das Artes, ícone arquitetônico do Rio, que leva a assinatura do francês Christian de Portzamparc, e também no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, que pela primeira vez em sua história bicentenária, recebe uma exposição de arte contemporânea em seu Arboreto, abrindo o ano de comemorações de seus 210 anos.

Em sua segunda edição, a TRIO bienal, que apresenta obras em variados suportes, porém sempre tridimensionais, sendo a única em seu perfil entre as bienais do mundo, reúne obras de diferentes artistas de diversas partes do mundo, para falar de um momento de crise sistêmica, hoje principalmente de bases humanistas e democráticas no âmbito das liberdades de expressão e direitos individuais.

Sob o tema “Vestir o Mundo!”, o curador Alexandre Murucci conclama os artistas a mostrarem que o sentimento de vestir o mundo, significa vestir compromissos, vestir anseios, vestir os elementos essenciais de nossa existência, de nossa relação com o mundo, com um planeta em conflito, em perigo, em urgências que nos exigem um posicionamento perante responsabilidades diárias.

A mostra é dividida em 3 módulos relacionados a elementos da natureza – vistos por seus coeficientes simbólicos: “Ar” – representando a cultura, o saber, a história e nosso zelo pelo Passado. A herança do humano; “Água” – que representa as forças atávicas da natureza, nosso compromisso com o Futuro; e “Terra” – que representa o espírito, a força telúrica que rege o Presente, em todas as formas anímicas da vida.

Veja texto da artista Adrianna Eu sobre sua obra ‘Pesca Seca’ que faz parte do Módulo “Terra”
Jardim Botânico / “Earth” core – Rio’s Botanic Garden.

Com-sentida esperança: uma análise de Pesca Seca, de Adrianna Eu.
Através das Aléias do Jardim Botânico, que se mantém potente em sua capacidade de conduzir
qualquer visitante a um estado de graça, embora já conhecida por mim, sua exuberância revela desde de longe a estufa desativada. Algumas janelas desvidraçadas. Dentro, um vermelho intenso acortina o lugar. Era Pesca Seca, de Adrianna Eu, ocupando de maneira vibrátil e eminente o espaço, aparentemente há tanto inutilizado.

Acertadamente pensado para o local que ocupa, o trabalho de Adrianna não poderia ter encontrado melhor pousada. Para o alcance da estufa, em meio às aléias, um portal de Trombetas (flores conhecidas, além de sua beleza, por produzirem chás alucinógenos) emoldura a pequena ponte que leva à estufa, adornando romântica e oniricamente o trabalho que se vê de fora. Quase como uma moldura ou uma cortina teatral, que se levanta apontando o trabalho em anima que acontece ali adiante.

Dentro da estrutura da então desativada estufa para plantas, que outrora abrigava o calor que
trabalhava em favor da vida que ali crescia, o trabalho está no já conhecido vermelho de Adrianna, animando o local, tentando ali sua interação com o outro, também já familiar. São numerosos fios de lã que, em forma circular, se alongam desde o teto da estrutura e precipitam até o fundo do chafariz que se encontra no meio do local, desvelando a investida da pesca, permeando certa impressão de sonho, o olhar para dentro dali. Aquela experiência que se tem no tempo/espaço do sonho e que no processo do acordar permanece uma atmosfera, uma visualidade estranha e confusa, com a qual se tenta dialogar com a realidade do estado de despertamento. Percebi-me conversando com o trabalho, procurando argumentos e significados como quando acordo e, por graça da memória, posso lembrar do sonho que tive; e tentando fazê-lo permanecer comigo, procuro encaixá-lo nos signos da consciência. Embora completamente absorta nessa rota de pensamentos, como quem é sacudido, percebo nas linhas vermelhas e trêmulas dos fios de lã, a textura do que é real.

Nao me parece uma via estranha relacionar o trabalho com a atmosfera do inconsciente, já que nele frequentemente manifestamos com ímpeto e desembaraço detalhes importantes sobre o sítio da consciência. Curioso pensar nas influências que Adrianna abraçou em sua trajetória enquanto artista. Especialmente na força que Louise Bourgeois exerceu sobre seu imaginário, a partir da identificação do assunto apaixonado e visceral do trabalho de ambas, aspectos também encontrados na obra de Frida Kahlo, por exemplo, através de sua estética intensa e onírica, motivo pelo qual fora tomada por parte do grupo dos surrealistas, estando presente por pura subjetividade, mais do que qualquer expressão da inconsciência.

Desde a provocação causada por seu nome, Eu, é inevitável ler os trabalhos de Adrianna de uma maneira muito pessoal. O convite para a íntima conversa que Pesca Seca faz àquele que se aproxima e dá ouvidos, torna a recusa absolutamente improvável. Bem como quem partilha de forma pura e singela suas particularidades e aguarda reciprocidade no trato da conversa, as linhas se lançam do teto, buscando alcançar o fundo da fonte, presentemente seca, expondo aí sua esperança infinda, insistente. Não por ignorância, mas pelo desejo de ultrapassar para o alcançar do outro. A mim pareceu apropriado analogar esta atmosfera toda elevada a favor da qualidade da vida de dentro, ao eu, você, pessoa. Não obstante, troquei com Pesca Seca, neste diálogo, investigando em mim as possibilidades de reconhecimento de tal insistência, de tal fé. Assim como no com-sentimento do amigo de Agamben, em que na sensação do ser, no sentir-se existir, há a possibilidade do com-sentir a existência do amigo na existencia própria, ambos são faces não idênticas de uma mesma coexistência, uma partilha se dá neste câmbio de exteriorização.

Adrianna EU | 2ª TRIO Bienal | Jardim Botânico | Rio de Janeiro | 17.12.17 a 17.03.2018