Adrianna EU é a nova artista que compõe o portfólio artístico da Matias Brotas arte contemporânea.

A carioca é formada pela Escola de Artes Visuais EAV – Parque Lage (RJ) onde frequentou cursos de Malu Fatorelli entre 2003 e 2006; e em Filosofia, com Auterives Maciel, no Museu da República entre 2003 e 2007. Adrianna também tem no currículo a residência internacional em Galeria Real -Amã, na Jordânia, em 2008.

Como nome artístico adotou “Adrianna eu” (nome que a representaria), pensando nisso como um nome-trabalho. Tendo como um de seus temas as relações das pessoas com a própria identidade, foi tomada por um desejo de ter no seu próprio nome uma “provocação” que já considera como um trabalho inicial. Adrianna Eu é um nome-trabalho que pretende provocar no outro um sentimento de reflexão. Com a intenção de gerar um estranhamento e levantar as questões dos limites do próprio eu, para cada lugar que a artista viaja, o pronome “eu”, por não se tratar de um sobrenome, é traduzido para a língua local, possibilitando assim que o processo de estranhamento intencionado se construa.

Em 2006 ganhou o Primeiro Prêmio do Salão Arte Pará. Adrianna Eu gosta de pensar que sua trajetória é traçada pelo desejo.
Na Matias Brotas, a artista expõe um de seus trabalhos na exposição coletiva ‘De Sangue e Ossos’, que segue até o dia 17 de maio. Sua instalação inédita chamada ‘Sala de Espera’ é um dos destaques da mostra e prende o olhar do visitante. A obra reúne em uma sala da galeria cerca de cem cabides antigos de madeira que a artista vem colecionando há mais de dez anos. Alguns foram comprados em feiras de antiguidade, outros a artista ganhou, e há ainda aqueles que foram trocados por cabides novos. Ali, todos reunidos, esses cabides pendem do teto da sala e parecem flutuar no pequeno espaço, lado a lado, e como se fossem ombros, sustentam corações de linha de costura vermelha pendurados a eles. O trabalho fala de solidão, desejo e amor.

Segundo a artista, como um vestido novo, dentro do armário, pendurado em um cabide, aguardando pela festa que finalmente o levará a ser usado, eles esperam.  Eles, todos eles, e cada um deles, um só. Parecem bailar, um frente ao outro, em silêncio. Eles aguardam que em algum momento a música certa toque. A música que os conduzirá para a dança solo. No vazio do salão de baile, do armário, da sala de espera, um faz companhia ao outro, mas a solidão impera. 

Há um desejo eminente de fuga. Um desejo de uso. Um grito contra o esquecimento. Eles desejam mais que a si mesmos. Desejam um outro.  Mais do que um outro. Eles desejam vestir-se desse outro que só existe no encontro. Desse outro que nos tornamos, quando dançamos a música escolhida. Uma escolha intuída pelo impulso fulminante de um afeto. Como um salto no escuro. Genuinamente inexplicável. 

Segundo a crítica de arte Fernanda Lopes, a produção de Adrianna Eu não busca explicações para as relações que estabelecemos ao longo da vida, por reconhecer que elas (as explicações) não existem, ou nunca são suficientes. Algo sempre se lhes escapa e é nesse terreno incerto que habitam os trabalhos da artista. Interessa a ela a maneira que nos sentimos em relação ao outro e em relação a nós mesmos. O que tiramos das relações que estabelecemos, sejam elas quais forem, e o que elas nos deixam como herança, como memória.

A linha é peça-chave na construção desse pensamento, mas não é uma linha reta, bem traçada, firme. As linhas de Adrianna Eu não são precisas, nem dessas que fazem ângulo de 90º. São tortuosas, se deixam levar pelo vento, não vão direto ao ponto, dão voltas muito maiores do que precisam para chegar onde querem, e se perdem no meio do caminho, chegando a lugares não imaginados. É no encontro emaranhado das linhas, na costura meio tosca, feita ao acaso que se dão as formas. É nesse momento que o delicado, como uma linha ao sabor do vento, ganha força. E não é qualquer linha. São linhas vermelhas. Vermelho como o sangue, cor associada às paixões, ao coração que pulsa, à presença da vida.