Antonio Bokel e Manfredo de Souzanetto, ambos artistas da Matias Brotas arte contemporânea com exposições realizadas em Vitoria, estão juntos na coletiva ‘Pintura ‘do tipo’ Brasileira no Centro Cultural Laurinda Santo Lobos, em Santa Tereza, Rio de Janeiro. A exposição abriu no dia 05 de maio e segue até o dia 04 de junho. Além deles, a mostra conta com mais dois artistas, Raimundo Rodriguez e Osvaldo Carvalho, e tem curadoria e texto de Renata Gesomino.

Os trabalhos ocupam as quatro salas do local com telas de grandes dimensões. A coletiva buscou reunir, de maneira inédita, quatro importantes artistas de gerações distintas da arte contemporânea brasileira, jogando luz sobre obras, ao mesmo tempo, distintas e complementares.

Veja parte do texto de Renata Gesomino sobre a exposição:

“A forma fácil e a pintura do tipo Brasileira”
A exposição coletiva “Pintura do tipo Brasileira” tem em seu título uma sutil sugestão de contranarrativa que atravessa uma cara metodologia historiográfica chamada formalismo. A metodologia formalista, como se sabe, se inicia com a teoria da pura-visualidade de Konrad Fiedler e sua consequente aplicação pelo historiador da arte suíço Heinrich Wölfflin em obras como “Os conceitos fundamentais da história da arte” e encontra um dos seus últimos grandes representantes ainda no século XX, através das reflexões e da produção textual do crítico de arte americano Clement Greenberg.

Assim sendo, “Pintura do tipo Brasileira” pretende fazer uma remissão irônica ao famoso artigo publicado pela primeira vez em 1955, intitulado “American type-painting”, que pode ser encontrado com as seguintes traduções: “Pintura do tipo Americana” e em tradução mais recente como “Pintura à Americana”. Neste trabalho, Greenberg reúne esforços retóricos pautados na criação de dois fundamentais parâmetros estéticos de qualidade para autorizar e afirmar a potência da geração de artistas pertencentes ao expressionismo abstrato americano a partir de conceitos evolutivos de planaridade (flatness) e de pureza.



Pensando na iniciativa Greenberguiana, isto é, a de legitimar diante da tradicional hegemonia europeia toda uma geração de artistas americanos, sobretudo, após o término da segunda guerra mundial, reiterando a massificação do imperialismo cultural ianque, pretende-se afirmar, da mesma maneira, utilizando o arcabouço teórico da metodologia formalista como alicerce, a produção pictórica contemporânea brasileira diante do atual panorama hegemônico que privilegia e destaca ainda majoritariamente artistas europeus e americanos. Yes, nós temos pintura!

Para tanto a mostra coletiva buscou reunir de maneira inédita, quatro importantes artistas de gerações distintas da arte contemporânea brasileira estabelecendo uma “Forma fácil”, isto é, de fácil compreensão para o observador e para o público não cultivado (outra contranarrativa que sugere uma oposição à narrativa sobre a “forma difícil” desenvolvida pelo críticode arte Rodrigo Naves em livro homônimo).

Inspirada no desejo modernista de totalidade e baseada na apreensão tipológica ou taxonômica de algumas obras especificamente circunscritas na esfera do campo pictórico de Manfredo de Souzanetto, Raimundo Rodriguez, Osvaldo Carvalho e Antonio Bokel, a exposição justapõe trabalhos de dimensões variadas e elementos estéticos plurais que vão desde a silenciosa planaridade dos colorfields de Manfredo de Souzanetto às narrativas figurativas de cunho político, cujo aspecto tipológico remete às narrativas do universo das HQ´s de Osvaldo Carvalho. Encontram assim uma espécie de transição de linguagens exatamente entre a figuração e abstração na obra peculiar e reflexiva repleta de signos soltos de Antonio Bokel e, por fim, se complementam através de uma ocupação inusitada do espaço porpulsantes campos de cor compostos por latas de tinta que são usadas como suporte e como a própria pintura,diversificando sua materialidade e deixando vestígios poéticos e atemporais nas obras de Raimundo Rodriguez.