O instigante nome ‘Inquiet(ação)’, o artista Antonio Bokel abriu individual na AM Galeria de Arte, em Belo Horizonte, Minas Gerais. Com curadoria de Vanda Klabin, a exposição reúne 40 trabalhos de Bokel, dentre pinturas, esculturas e uma instalação – algumas dessas obras já conhecidas e outras apresentadas ao público pela primeira vez.

Inspirada na temática de morte e renascimento, há um olhar sobre o olhar da pintura, que cria uma interlocução com outras linguagens, como a literatura. Antonio Bokel relaciona suas obras à linguagem de artistas urbanos e da arte pop, como Andy Warhol, Keith Haring e Jean Michel Basquiat, assim como outros nomes da vanguarda contemporânea, como Amílcar de Castro e Mira Schendel.

A temática dos ciclos da vida norteia a mostra: morte e renascimento são abordagens constantes. O artista criou também elementos geométricos e apostou na repintura de telas, reforçando a ideia de memória e reconstrução de passado, sem deixar de lado a poética urbana que atravessa toda a obra do artista.

A exposição segue para visitação gratuita até dia 23 setembro.

Veja texto crítico na íntegra da curadora:

INQUIET (AÇÃO) por Vanda Klabin
A trajetória artística de Antonio Bokel é uma das ricas e variadas da sua geração. Beneficiário de uma liberdade contemporânea, uma poética de suas experimentações artísticas tem outra duração, outra intensidade. O crítico de arte Giulio Carlo Argan é umlivro de arte que faz uma representação do mundo e uma ação que realiza .  Antonio Bokel trabalha com a corrosão do conceito de arte, ao utilizar um equipamento crítico que remete, através do seu repertório prolixo, a transformadores transformadores. Suas obras são experiências multidirecionadas, inquietas e interrogativas. As suas críticas às pressões de tessitura urbana, desordenada e anónima, são adequadas ao olhar do artista como um ingrediente activo, revigorando os objectivos e transformando-as em acontecimentos estéticos. Observa-se nas suas obras, uma constante ligação entre a arte e o tecido da vida urbana, como partes constitutivas do seu universo simbólico. Recorre a uma experiência da cidade como seqüências existenciais – todos constroem o seu espaço de referência, todos parecem ser um território, há uma extensão estética e espacial em uma camada mais ampla.

Sua busca por novos materiais e últimas madeiras é exibida em suas pinturas mais recentes, ao mesmo tempo em que apresenta uma superfície de tela com uma espécie de compensação digital, uma parte aparente e outra com os seus gestos pictóricos beneficiados pelo seu fascínio pela geometria, produzindo verdadeiras equações visuais. São pinceladas turbulentas ou gestuais amplas, que tangenciam a tridimensionalidade. A pulsação do movimento e do contramovimento cria uma desarticulação entre as novas ambições, demonstrando sua grande versatilidade para o consumo de energia e diferentes caminhos.

A sua órbita poética traz influências da linguagem contundente da pop art e das patentes estéticas das paletas cromáticas e gestuais de Jean-Michel Basquiat, da Cy Towmbly, da Antoni Tàpies e da Christopher Wool, e da flerta com o ideário construtivo presente em Amílcar de Castro e Mira Schendel Como várias formas de impregnação cromáticas vão emergindo, saturam o plano da superfície por meio de formas expansivas, plenas de geometrias. Mas é na sua pintura que encontra os exercícios do campo de ação, indicativos de uma força integradora de suas investigações estéticas, os núcleos equilibrados, formas e volumes num mosaico de pinceladas rítmicas que trazem à tona como assimetrias do mundo e sinalizam a realidade com suas fissuras, tensões e enigmas a serem decifrados. A parte superior de suas esculturas remete ao corpo humano. Quase orgânicas ou híbridas, é um conjunto de trabalho, por vezes, como elementos seriados. Apresentam combinações visuais surpreendentes e, na sua investigação, emergem, parecem nos interrogar, na sua estrutura transitória, sobre o seu sentido e sua direção.

O trabalho de Antonio Bokel vai estabelecer um elo entre o coletivo, que está ali sendo capturado na vida urbana e a subjetividade do artista, um enxergar por frestas de luz, o ritmo da ordem preestabelecida, esse universo anônimo que se constrói e reconstrói, presente nas organizações humanas. Sua produção é indicativa de uma tensão visual e provoca diferentes nuances nas suas reivindicações estéticas, que despertam conhecimento, diferenças e contradições no público em geral.

Vanda Klabin é cientista social, historiadora e curadora de arte