O artista Antônio Bokel abre individual ‘Tudo que está coberto’ na galeria Aura, na Vila Madalena, em São Paulo. Com curadoria de Paulo Gallina, a exposição conta com aproximadamente 20 obras, sendo 17 pinturas e três esculturas em concreto e bronze.

A ideia para a individual surgiu durante uma caminhada com o curador, por meio da observação, ao longo do percurso, de objetos ocultos por outras superfícies – tecidos, lonas, entre outros. Com um olhar de “migrante” na cidade de São Paulo, observando as inquietações da metrópole, o artista iniciou o processo de criação da sua nova exposição.

O trabalho de Bokel transita, há mais de 15 anos, entre a linguagem urbana dos lambe-lambes, das pichações e dos grafites à colagem, à fotografia, à escultura e às telas. A partir daí, o que já era latente nos trabalhos anteriores do artista, por meio da pintura, ganha nova passagem para a forma, incluindo os suportes de escultura e fotografia. Nesta individual, por exemplo, as pinturas revelam a preocupação com o caráter gestual, como se cada linha, movimento e cor se preocupassem com o registro do ocorrido, e não com a “imagem em si”.

Nas palavras de Paulo Gallina sobre o novo trabalho de Bokel “Ao se refletir sobre o universo das artes sempre se está pensando em imagens, com frequência, entretanto, confunde-se uma obra de arte com a superfície da imagem. Talvez nas produções artísticas artes literárias ou musicais a relação entre a forma apresentada e o conteúdo discorrido não se reportem tanto às imagens sobre o papel. Com a produção em artes plásticas, no entanto, a imagem é reiteradamente tomada como sinônimo da superfície visível. Uma conclusão razoavelmente lógica, ainda que se revele como falsa no contexto da pesquisa e produção do artista carioca Antônio Bokel”.


Um dos destaques da exposição é o conjunto de pinturas intitulado RIR (2017), no qual Bokel conclama o observador a uma experiência. As telas de linho e algodão sobrepõem a gestualidade livre das linhas e formas à dureza da geometria por negrume: ao contrário da matemática analítica, como forma mental de se abordar o mundo, a RIR (2017) revela outro caminho: ser explorada enquanto momento fora do tempo – sem passado e sem futuro – como matéria posta à vista enquanto ocorrência. Outras pinturas, como Amilcar descalço (2017) e Frete (2017), redimensionam o discurso visual do artista para o interesse por rastros e vestígios, como o retângulo amarelo em Frete (2017), que sugere uma superfície que havia sido completamente acobertada por uma camada de tinta azul.

Esse fetiche – ou erotismo da plasticidade – do cobrir e do descobrir, do revelar e do esconder, diz respeito à linguagem visual adotada nas pinturas, mas também está presente nas três esculturas e na única fotografia que compõem a individual do artista. Nas esculturas, tecidos sustentam e cobrem estruturas pesadas de cimento e, também, revelam e escondem objetos cobertos. Em obras como O que está coberto (2017, Bronze), Rolling (2017, Bronze) e Sustentável leveza (2017, Concreto e bronze), há a mesma investigação pelo inesperado jogo entre o desvelar e o ocultar; as esculturas ganham forçam na dialética entre o peso e a leveza.

Inspirada nos tecidos que cobriam os corpos nas estatuárias renascentistas, Bokel continua o exercício iniciado em exposições anteriores, com o uso do concreto e do bronze; a diferença para essa individual reside na fundição dos tecidos em bronze, que sugere a aparência de leveza num diálogo com um material bruto como o concreto.

Bokel nasceu no Rio de Janeiro, em 1978. Formou-se em design gráfico pela UniverCidade, em 2004. Realizou a sua primeira exposição individual em 2003, na Ken’s Art Gallery, em Florença, Itália, onde residiu e fez cursos de fotografia e história da arte. No Rio de Janeiro, teve aulas de modelo vivo com Bandeira de Mello e fez cursos de pintura, com João Magalhães e com Luiz Ernesto, na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, Rio de Janeiro.

Ao longo das duas últimas décadas, tem apresentado seu trabalho no Brasil e no exterior, e lançou no último ano seu livro ‘Ver’ que traz uma seleção de suas principais obras produzidas entre 2011 e 2015. Foi indicado a prêmios como o PIPA 2015 e seus trabalhos estão nas maiores coleções Brasileiras, como a de Gilberto Chateubriand e BGA Investimentos, e alguns trabalhos no acervo do MAM.