“Transparência e Reflexo” é o nome da coletiva em cartaz no MuBE – Museu Brasileiro da Escultura, aberta para visitação até 30 de outubro.

Com curadoria de Cauê Alves, são 23 obras tridimensionais, que ocupam as áreas externas e internas do museu, obras essas que estabelecem uma relação direta com o ar, atmosfera e o espaço ao redor delas. Um dos artistas em destaque é José Bechara com sua obra ‘Miss Lu Silver Super-Super’, em alumínio fundido em diferentes dimensões, da série esculturas gráficas (2007 – 2016).

Bechara está na coletiva ao lado de outros nomes como como Amélia Toledo, Angelica Teuta, Arnaldo Antunes, assume vivid astro focus, Antonio Manuel, Carlito Carvalhosa, Carlos Fajardo, Damián Ortega, Débora Bolsoni, Iole de Freitas, Iran do Espírito Santo, Ivan Navarro, Jac Leiner, José Resende, Laura Belém, Lea Van Stenn e Raquel Kogan, Lucia Koch, Marcia Xavier, Marcius Galan, Nuno Ramos, Rodrigo Bueno, Túlio Pinto, Vanderlei Lopes e Waltercio Caldas.

Transparência e Reflexo
A noção de transparência está ligada à capacidade do olhar penetrar as superfícies e assim abrir abismos para além da aparência externa dos objetos. Aquilo que está atrás se apresentaria de modo mais nítido. Se a transparência tende a evitar a dúvida, o reflexo duplica a imagem e provoca ambiguidades, iludindo um espaço tridimensional sobre um plano. Quando a superfície se torna transparente ou vazada ela evidencia a continuidade da relação da arte com o seu entorno, seja a paisagem urbana ou a arquitetura do museu.

As obras em exibição estabelecem uma relação franca e direta com o ar, a atmosfera e o espaço ao redor delas. É como se a transparência nos permitisse perceber o lado de dentro da matéria, enquanto o reflexo o lado de dentro de nós observadores. Em ambos os casos um elemento invisível se revela. Dentro e fora, frente e verso, passam a ser vistos simultaneamente. Interioridade e exterioridade deixam de ser opostos. Entretanto, nada é totalmente transparente ao olhar, ainda há um dentro e um fora. Um se confunde e se diferencia do outro do mesmo modo como, às vezes, nós nos confundimos com nossa imagem refletida num espelho: esse objeto diferente de nós, mas que nos revela quem somos.

A transparência, ao pressupor a passagem da luz e a possibilidade de nossa visão atravessar os objetos, permite um rasgo do olhar sobre o mundo. O que pode revelar seus fundamentos e estruturas, assim como pode trazer à tona o vazio que constitui todas as coisas. Com isso, o mundo perde a sua concretude. Daí passamos a vislumbrar outros sentidos, até então adormecidos, um movimento auto reflexivo, uma interrogação frente a própria dificuldade de nosso olhar atravessar plenamente a espessura formal e conceitual da arte.

Nos trabalhos de Transparência e Reflexo há sempre um elemento que permanece invisível, inalcançável, mesmo diante de um olhar direto, há algo de impenetrável. Tal como formulou o filósofo Merleau-Ponty, a transparência revela o próprio enigma da visão: “o interior do exterior e o exterior do interior, que a duplicidade do sentir torna possíveis”.
Cauê Alves

Transparência e Reflexo
Curadoria de Cauê Alves.
Em cartaz até 30 de outubro
MuBE – Museu Brasileiro da Escultura
Avenida Europa, 218, Jardim Europa, São Paulo
Funcionamento: de terça-feira a domingo, das 10h às 19h
Fone: (11) 2594 2601

José Bechara | Transparência e Reflexo | MuBE – Museu Brasileiro da Escultura | São Paulo | Até 30 de outubro