Três fotografias da série “Acheiropoieta” de Lando passam a compor o acervo da Matias Brotas arte contemporânea
 
Depois de ficarem em cartaz na exposição fotográfica “Imagem-Passagem: Dinâmicas da fotografia em contexto de viagem” no Centro Cultural Sesc Glória, no final de 2016, três fotografias da série “Acheiropoieta” de Orlando da Rosa Farya agora fazem parte do acervo da Matias Brotas arte contemporânea. Mais conhecido como Lando, o artista capixaba acaba de ser indicado para concorrer ao prêmio PIPA 2017.

Veja texto crítico do artista sobre sua série fotográfica “Acheiropoieta”:

ACHEIROPOIETON (o que não é feito pela mão do homem)
É o caráter provisório dos deslocamentos, viagens e derivas, que ao meu ver, promove os encontros, as descobertas. Deambular pelos meandros, atalhos, desvios e adjacências das cidades. Perder-se no desconhecido. Tudo isso, aguça a percepção, apresenta novas perspectivas e abordagens do mundo. Ao meu ver, por privilegiar incursões por terrenos desconhecidos, viagens predispõem os sentidos para novas aquisições de sensibilidades. Portanto, o gosto pela viagem, a inquietação com a imagem são aspectos importantes, contemplados na série que denominei Acheiropoieta que conectam desejos e expectativas neste projeto artístico.
 
As imagens fazem parte de uma série de autorretratos feitos a partir do registro
de sombras projetadas sobre superfícies diferenciadas, tanto podem extratos da natureza: árvores, arbustos, pedregulhos, relvados, etc, quanto aspectos variados da paisagem urbana e humana.
 
De tal circunstância, ou seja da apropriação da sombra, deriva, por aproximação poética, o título da série, fazendo referência aos acheiropoieta, ou seja, imagens (ícones), que segundo a tradição cristã, surgem de forma misteriosa, sem a participação da mão humana. Portanto, o dado natural, espontâneo que fundamenta o fenômeno fotográfico (do grego photo = luz e grafia = escrita), implicado na formação da imagem, reitera certa aura de magia que remete aos acheiropoieta.
 
No ensaio fotográfico, as sombras projetadas, “incorporam” ou circunscrevem,
nos limites de sua projeção, os dados próprios a cada contexto escolhido. Absorvem as informações características aos elementos apropriados: transpostos em linhas, formas, cores, volumes, texturas, materialidades diversas, mimetizando expressões, fisionomias, descrevendo entidades singulares no limite dos contornos de sombra.
 
Através do registro fotográfico, são fixadas, portanto, imagens que mimetizam
personagens inusitados, meio humanos, meio monstros que parecem emergir de tempos esquecidos, eras remotas, ou personagens hibridizados com materiais industrializados, com linhas, superfícies e texturas do ambiente artificial além de figuras, transeuntes invadidas pela presença mágica das sombras. São, portanto, imagens que substancializam contextos visuais e simbólicos variados. Abrem-se inclusive, para infinitos questionamentos a propósito da condição humana e sua representação, às especulações sobre certa condição arquetípica do ser. Supõe, inclusive, uma fantasia relativamente à figura do Unheimlich freudiano ou do mito do Elo perdido. Remete, inclusive à fábula de Butades e a origem da representação na arte, contada por Plínio, o velho, na sua “História Natural”.
 
Lisboa, agosto 2016. Orlando da Rosa Farya