José Ortega y Gasset – Velázquez. São Paulo, Martins Fontes, 2016
Este é um livro único. Extraordinário. Ele demonstra indiretamente o por que certas obras de arte, de um desenho rupestre ao conjunto de esculturas produzidas por Brancusi, conseguem atravessar os séculos e continentes, passar por cima dos idiomas e dos modos de ser moldados pela história, para iluminar sentidos e mentes. Prova, acima de tudo, que toda obra que nos fala algo é nossa contemporânea, o que pouco tem a ver com as obras que são produzidas agora.

O filósofo espanhol Ortega y Gasset a princípio recusou o convite de seu editor suíço para escrever sobre a pintura de Velásquez alegando que seu conhecimento de pintura “era ínfimo”. Pois era justamente isso o que interessava ao editor, uma cabeça privilegiada distante dos jargões e cacoetes dos historiadores da arte.

O resultado é assombroso. A partir de sua leitura fica claro porque Velásquez foi um “pintor dos pintores”, marcando profundamente o trabalho de outros artistas fundamentais como Courbet e Manet, com reverberações em Picasso e Magritte, insinuando-se por meandros que se espraiam até o presente. Isso para não falar em seus efeitos sobre a filosofia, do que é exemplar a análise de “As meninas”, feita por Michel Foucault logo a abertura de seu “As palavras e as coisas”.

Sem ser historiador da arte, Ortega y Gasset produz um livro invejável aos olhos desses e dos críticos de arte, tanto daqueles que preferem destacar o modo como uma obra de arte inscreve-se num determinado contexto social, ajudando a modelá-lo, como daqueles que se concentram em aspectos formais, analisando a natureza interna de uma contribuição no âmbito específico da arte.

Livro delicioso, repletos de sacadas desconcertantes, um guia seguro não só para a obra de Velásquez, mas para a introdução ao território da arte.

Agnaldo Farias
Professor de História da Arte da FAUUSP
Crítico e Curador