Um relato sobre a leitura do livro “O escolhido foi você”, de Miranda July, Companhia das Letras, 2013

Meu primeiro contato com Miranda July foi ao assistir seu filme “Eu, você e todos nós” (Me and you and everyone we know), de 2005, que estreou no Brasil durante a 29ª Mostra Internacional de Cinema, em outubro daquele ano.

Miranda define-se em seu site (www.mirandajuly.com) como cineasta, artista e escritora. Minha identificação com ela aconteceu antes que eu soubesse disto, mas esta multiplicidade me interessa e quase sempre me vejo envolvida por pessoas que afirmam ter mais de uma profissão.

Eu assisti ao “Futuro”, seu segundo longa, na Mostra Internacional de 2011. O filme trata com ironia e algum desprezo dois jovens adultos contemporâneos e sua incapacidade de amadurecer.

O livro “O escolhido foi você” é o resultado de uma pesquisa feita por Miranda durante a concepção do roteiro deste filme, em meio a uma crise criativa e à espera de financiamento para rodar o longa. Tem um formato que não se encaixa em nenhuma categoria pré-estabelecida. Não é um romance, nem um relato documental apenas. A artista/etc entrevista pessoas que vendem bens pessoais por meio de um jornalzinho distribuído gratuitamente no bairro onde mora. Ursinhos Carinhosos, uma jaqueta de couro, um velho secador de cabelos… Miranda propõe-se a conhecer de perto os vendedores destes itens e as conversas são transcritas no livro em meio a fotos dos personagens em seu cotidiano, e reflexões da autora sobre sua vida, sua produção artística, angústias existenciais e solidão, que, no final das contas, são temas que pertencem e atormentam a todos nós.

Diz ela: “Tudo que eu sempre quis mesmo saber é como as pessoas estão se virando na vida – onde põem o próprio corpo, hora a hora, e como dão conta de tudo. (…) Tentar ver as coisas que são invisíveis mas próximas sempre me atraiu. Parece-me uma causa real, algo por que lutar, e ainda assim tão abstrato que a luta precisa ser igualmente sutil”.

Muito de minha identificação com Miranda vem do fato de ambas nos interessarmos, com muita curiosidade e um certo espanto, por pessoas, e nos fascinarmos pelo ordinário da vida de cada um. Em meus trabalhos este interesse é patente e este livro é uma daquelas obras sobre as quais ouso dizer sem nenhuma modéstia: Poderia ser minha.

“O escolhido foi você” é um título perfeito para o que se desenrola no livro, até porque um dos personagens entrevistados acaba sendo ator do filme que Miranda gestava na época, fazendo o papel de si mesmo. O livro termina com uma conversa entre Miranda e Joe, o homem que vendia 50 cartões de Natal artesanais por U$ 1 e que faleceu antes da estreia do filme.

Leiam o livro. Assistam ao filme. Ambos nos jogam no universo de estranheza e dúvidas não só da artista, mas de cada um de nós que ainda nos comovemos com o que há de humano nos humanos.