Ana Holck
Ana HolckArtista

A formação em Arquitetura é transparente em muitos trabalhos de Ana Holck, não somente pela presença constante de vocábulos geométricos, mas sobretudo por uma ocupação do espaço que busca modificar a relação entre as pessoas e as coisas. Como afirma nesta entrevista, Ana quer provocar um impacto não apenas no olhar, mas também no corpo de quem olha. Esse impulso se manifesta tanto nas suas intervenções com grandes fitas adesivas quanto na sua série de fotografias sobre canteiros de obras. Uma das principais representantes da geração de artistas plásticos brasileiros que emergiu nesta primeira década do século 21.

Currículo
Ana Holck
Rio de Janeiro, Brasil [Brazil], 1977
Vive e trabalha em [lives and works in] Rio de Janeiro, Brasil [Brazil]

Formação [Education]
2010
Linguagens Visuais [Visual Languages] (Doutorado / PhD). Escola de Belas Artes, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil [Brazil]

2003
História [History] (Mestrado / Master Degree). Pontifícia Universidade Católica, Rio de Janeiro, Brasil [Brazil]

2000
Arquitetura e Urbanismo [MA in Architecture]. Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade Federal do Rio Janeiro, Brasil [Brazil]

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Exposições Individuais (Solo Exhibitions)
2012
.Zipper Galeria (SP) [setembro]
.Anita Schwartz Galeria de Arte (RJ) [março]
.Galeria Matias Brotas (ES) [novembro]

2010
.Bastidor. Centro Cultural Banco do Brasil, Rio de Janeiro, Brasil [Brazil]
.Os Amigos da Gravura. Museu da Chácara do Céu, Rio de Janeiro, Brasil [Brazil]

2006
.Notas Sobre Obras. Galeria Virgilio, São Paulo, Brasil [Brazil]; Mercedes Viegas Arte Contemporânea, Rio de Janeiro, Brasil [Brazil]
.Canteiro de Obras. Paço das Artes, São Paulo, Brasil [Brazil]

2005
.Elevados. Paço Imperial, Rio de Janeiro, Brasil [Brazil]

2004
.Quarteirão. Centro Universitário Mariantonia, São Paulo, Brasil [Brazil]
.Estais. Galeria Virgilio, São Paulo, Brasil [Brazil]

2003
.III Mostra do Programa de Exposições. Centro Cultural São Paulo, Brasil [Brazil]
.Transitante. Galeria Candido Portinari, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Brasil [Brazil]

2001
.Galeria da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, Rio de Janeiro, Brasil [Brazil]

Exposições Coletivas (Group Exhibitions)
2012
.E os amigos sinceros também, Galeria de Arte Ibeu, Rio de Janeiro
.A Primeira do Ano, Anita Schwartz Galeria de Arte, Rio de Janeiro

2011
. 1911-2011 Arte Brasileira e depois na Coleção Itaú Cultural. Paço Imperial, Rio de Janeiro
.Lost in Lace. Birmingham Museum and Art Gallery, Inglaterra [England]
.Nova Escultura Brasileira. Heranças e diversidade. Caixa Cultural, Rio de Janeiro, Brasil [Brazil]
.AGORA simultâneo, instantaneo. Santander Cultural, Porto Alegre, Brasil [Brazil]
Em torno da escultura. Anita Schwartz Galeria de Arte, Rio de Janeiro
Bastidor, SP-Arte projetos especiais, Zipper Galeria

2010
.Horizonte Construído. Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Brasil [Brazil]
.Chez-Toi. See Art Advisory, Paris, França [France]
Desenhos e Diálogos, Anita Schwartz Galeria de Arte, Rio de Janeiro, Brasil
.Lugar Algum. SESC Pinheiros, São Paulo, Brasil [Brazil]
.]entre[. Galeria de Arte IBEU, Rio de Janeiro, Brasil [Brazil]
.O lugar da Linha, Temporada de Projetos 2010. Paço das Artes, São Paulo, Brasil [Brazil]; Museu de Arte Contemporânea de Niterói, Brasil [Brazil]
.Prêmio Funarte de Artes Plásticas Marcantonio Vilaça, Museu de Arte Contemporânea de Niterói, Brasil [Brazil]

2009
.Trilhas do Desejo, Rumos Artes Visuais 2008/2009. Paço Imperial, Rio de Janeiro, Brasil [Brazil], Instituto Itaú Cultural, São Paulo, Brasil [Brazil]
.Borderless Generation: Contemporary Art in Latin America. Korea Foundation, Seul, Coréia do Sul [South Korea]
.Obsolescências, Rumos Artes Visuais 2008/2009, Casa Andrade Muricy, Curitiba, Brasil [Brazil]
.NOVA ARTE NOVA. Centro Cultural Banco do Brasil, São Paulo, Brasil [Brazil]
.Trabalhos em Papel. Mercedes Viegas Arte Contemporânea, Rio de Janeiro, Brasil [Brazil]

2008
.NOVA ARTE NOVA. Centro Cultural Banco do Brasil, Rio de Janeiro, Brasil [Brazil]
.Arquivo Geral. Centro Cultural da Justiça Eleitoral, Rio de Janeiro, Brasil [Brazil]
.Espaços Reversíveis. Palácio Cruz e Souza, Museu Histórico de Santa Catarina, Florianópolis, Brasil [Brazil]
.Arte Contemporânea e Patrimônio. Paço Imperial, Rio de Janeiro, Brasil [Brazil]

2007
.Prêmio UniversidArte XV. Museu da República, Rio de Janeiro, Brasil [Brazil]
.A Imagem do Som do Samba. Paço Imperial, Rio de Janeiro, Brasil [Brazil]
.Novas Aquisições 2006 2007 – Coleção Gilberto Chateaubriand. Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Brasil [Brazil]
.Prêmio Projéteis FUNARTE de Arte Contemporânea. Funarte, Rio de Janeiro, Brasil [Brazil]
.UniversidArte XV. Galeria Especial, Universidade Estácio de Sá, Rio de Janeiro, Brasil [Brazil]

2006
.A Imagem do Som da Musica Popular Brasileira. Paço Imperial, Rio de Janeiro, Brasil [Brazil]
.Arquivo Geral. Centro Cultural Helio Oiticica, Rio de Janeiro, Brasil [Brazil]
.Paisagem Bruta. Galeria Virgilio, São Paulo, Brasil [Brazil]
.Wilton Montenegro: Notas do Observatório. Centro Cultural Telemar, Rio de Janeiro, Brasil [Brazil]

2005
.BR 2005. Galeria Virgilio, São Paulo, Brasil [Brazil]
.Artecontemporânea, Mercedes Viegas Arte Contemporânea, Rio de Janeiro, Brasil [Brazil]
.nmúltiplos, Arte 21 Galeria, Rio de Janeiro, Brasil [Brazil]
.Educação, Olha!. A Gentil Carioca, Rio de Janeiro, Brasil [Brazil]
.Coletiva 2005. Mercedes Viegas Arte Contemporânea, Rio de Janeiro, Brasil [Brazil]
.10 indicam 10. Pequena Galeria, Universidade Candido Mendes, Rio de Janeiro, Brasil [Brazil]

2004
BR 2004. Galeria Virgilio, São Paulo, Brasil [Brazil]
.Projéteis de Arte Contemporânea. FUNARTE, Rio de Janeiro, Brasil [Brazil]
.Posição 2004, Escola de Artes Visuais do Parque Lage, Rio de Janeiro, Brasil [Brazil]

2003
.INSOLA(R)ÇÕES, Solar Grandjean de Montigny, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Brasil [Brazil]
.8:7. Escola de Artes Visuais do Parque Lage, Rio de Janeiro, Brasil [Brazil]
.Coletiva do Programa de Exposições 2003. Centro Cultural São Paulo, Brasil [Brazil]

Prêmios (Awards)

2011
I Concurso Itamaraty de Arte Contemporânea [segundo lugar categoria escultura] Brasil [Brazil]

2009
.Prêmio de Artes Plásticas Marcantonio Vilaça. Funarte, Brasil [Brazil]

2007
.Prêmio Universidade Estácio de Sá. Rio de Janeiro, Brasil [Brazil]

2005
.Prêmio Projéteis Funarte de Arte Contemporânea. Funarte, Rio de Janeiro, Brasil [Brazil]

2004
.8º Programa de Bolsas RIOARTE. Prefeitura do Município do Rio de Janeiro, Brasil [Brazil]

2002
.Menção Honrosa [Honorable Mention]. Novíssimos 2002, Galeria de Arte IBEU, Rio de Janeiro, Brasil [Brazil]

2001
.Prêmio Paviflex. São Paulo, Brasil [Brazil]

2000
.Prêmio Arquiteto de Amanhã. Instituto dos Arquitetos do Brasil, Rio de Janeiro, Brasil [Brazil]

Coleções Públicas (Public Collections)

.Ministério das Relações Exteriores, Brasilia-DF [Brazil]
.Instituto Itaú Cultural, São Paulo, Brasil [Brazil]
.Museu de Arte Contemporânea de Niterói, Brasil [Brazil]
.Museu de Arte Moderna de São Paulo, Brasil [Brazil]
.Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro/Coleção Gilberto Chateaubriand, Brasil [Brazil]
.Pinacoteca do Estado de São Paulo, Brasil [Brazil]
.Universidade Estácio de Sá, Rio de Janeiro, Brasil [Brazil]

Textos Críticos

Arquiteturas insondáveis - Ligia Canongia
O que é real é o contínuo mudar da forma*

A visão aérea da maquete desta exposição nos lembrou-nos um projeto de urbanismo delirante, cujas torres, colunas e passarelas, à semelhança das arquiteturas cenográficas e fantásticas de Piranesi, não conduzem a lugar nenhum e são inabitáveis. Diferente, porém, da atmosfera sombria e claustrofóbica do italiano, as construções de Ana Holck filiam-se à clareza dos planos arquitetônicos modernos – à grade límpida de seus traços e à sua transparência – de onde absorvem a economia das linhas e do desenho.

A arquitetura, sem dúvida, é referência permanente na obra, até mesmo na seleção de seus materiais, mas sempre conjugada ao passado construtivo da arte brasileira, em especial, ao neoconcretismo, legado ativo e renitente em todas as operações artísticas que ainda hoje, no Brasil, persistem na ordenação modernista.

A qualificação lírica da geometria e as especulações afetivas do método neoconcreto têm-se mantido em trabalhos de outras gerações, como no de Ana Holck, com desdobramentos admiráveis e novo frescor. A presença neoconcreta distancia a artista das cadeias previsíveis da obra concretista e das ações ascéticas do minimalismo norte-americano, na medida em que seu desafio é justo encontrar, na repetição dos gestos, a quebra inesperada da série. Afinal, o princípio obsessivo de Ana Holck parece ancorar-se em uma pergunta ou um problema: como contrariar a ordem estável e repetitiva do módulo? Como fazer com que uma estrutura formal definida e racional se deixe infiltrar por movimentos acidentais e involuntários?

O vídeo Contramuro, que Holck realizou em 2009, parece exemplar nesse sentido. Os tijolos, meticulosamente montados uns sobre os outros, edificavam um conjunto de paredes, até o momento do colapso total da construção, em que ruíam em desequilíbrio. Esse trabalho, que revigora os postulados pós-minimalistas, com ressonâncias de Robert Smithson e Eva Hesse, já demarcava o processo da artista: partir de uma forma geométrica e programada para, em seguida, desconstruí-la. Na verdade, Contramuro apresentava-se como a paródia do rigor concreto e minimalista, buscando uma identificação flexível e espiritual da escultura com o mundo ou do objeto com o corpo e a paisagem.

Os materiais de Ana Holck são, por natureza, difíceis. Pré-moldados, com funções definidas na ordem pragmática da construção civil, carregam em si o lastro dessa funcionalidade, não permeável, em princípio, a dobraduras simbólicas. Os tijolos e os pré-fabricados de concreto são objetos que, pela função e pela repetição, se tornaram invisíveis. O trabalho de Ana Holck, portanto, parece querer tirá-los desse limbo, requalificar espiritualmente formas que já perderam valor e presença no mundo cotidiano.

De um losango de concreto, módulo utilizado no pavimento das calçadas, ela eleva uma coluna de outros losangos, vazados e em acrílico colorido, como a vaporizar seu peso, inscrever e multiplicar seu desenho no espaço e fazer evoluir a forma em trepadeiras dançantes. O módulo sai de si, sai daquele lugar nenhum onde estava adormecido para habitar um lugar improvável, simbolicamente delimitado por movimentos de transporte e transformação. Esse novo lugar passa então a implicar alterações antes impensáveis ao caráter original do objeto modular. De sua bidimensionalidade primeira, o módulo salta para o espaço real, adquire contornos tridimensionais e ganha corpo, ainda que um corpo volúvel e permeado pelo vazio.

Ademais, passa a produzir uma dinâmica de significação, subjetiva e ao mesmo tempo histórica, antes impermeável a qualquer tecido interpretativo e renegado à ordem imediata do pragmatismo.

O resguardo da subjetividade aqui é sutil, mas potente o suficiente para retirar o módulo de sua passividade e recodificá-lo em uma partitura desconhecida; rítmica e lúdica. O caráter serial das formas de Ana Holck, portanto, sustenta-se por um fio, no limite ambíguo entre o mesmo e o diferente e, à semelhança das paredes de tijolos, quebra-se no ar.

A artista parece perseguir a fluência das matérias no espaço, a reciprocidade entre a opacidade e a transparência ou entre os corpos e o vazio, incluindo nesses jogos a interpenetração da luz, o desenrolar das cadências do movimento e o tempo compassado de seu desdobrar, projetado ao infinito. Sem dúvida, Brancusi e suas Colunas sem fim são alusões prováveis, não somente pela sugestão de motivos perpétuos e circulares, como, sobretudo, pelo desenvolvimento de formas ideais e modulares em evolução perene no tempo.

Já fora da geometria pura e instaladas no mundo variável da contingência, as esculturas de Ana Holck são produtos “de situação”, moldadas à mercê da temporalidade dos gestos e da flutuação dos espaços, inscrevendo a forma em função da experiência. O fluxo irregular de suas dobraduras mantém o olhar do espectador em constante movimento, e a precisão aparente do módulo é dissolvida, ao inserir-se em um meio múltiplo, em que o fixo tem a potência da metamorfose. O trabalho, assim, ainda que operando a partir de estruturas regulares e estáticas, é uma busca permanente pelo desvio da norma e pela transformação.

Passarelas é outro conjunto de trabalhos que segue os princípios básicos de Holck, desta vez com planos de alumínio curvilíneo. Suspensos por cabos de aço, em tensão e equilíbrio fugaz, neles, acentuam-se a imaterialidade, a dinâmica das linhas e a transparência. Passarelas que se entrecruzam no espaço, que parecem varar os muros e produzir volume com e a partir do vazio; essas esculturas desenham o mundo, mais do que o ocupam. Similares às primeiras esculturas de Franz Weissmann, em especial suas “pontes” e “torres” do final dos anos 50, as passarelas aderem ao espaço e com ele se confundem, instituindo-se como quase-corpos, que flutuam no ar.

A tensão física dos materiais, por si mesmos incorpóreos e pouco tangíveis, concentra-se na sustentação precária das lâminas de alumínio por cabos e pêndulos, instaurando a fugacidade espaçotemporal da obra e o caráter fantasmático de sua volumetria. Passarelas é obra feita pelo traçar musical de graves e agudos, de luzes e sombras, de estabilidade efêmera, quase uma aparição, que opera o invisível como presença.

Ana Holck traça pontos e linhas que rastreiam o fluxo inexorável do espaço e do tempo, pontuando seus ritmos com cortes delicados e precisos. A obra prima por volatizar as matérias concretas da vida comum, para que elas desapareçam … ou apareçam pela primeira vez.

*BERGSON, Henri apud Friedrich Teja Bach, in catálogo da exposição “Constantin Brancusi: 1876 – 1957”, Philadelphia Museum of Art, 1995.

Em torno de cruzamentos e torres - Paulo Sergio Duarte
Há seis anos escrevi sobre o trabalho de Ana Holck. Para as velocidades do mundo contemporâneo, um tempo de mais de meia década conta muito; entre outras coisas para experimentarmos a consistência da obra nos desdobramentos de sua linguagem. E é essa coerência que se confirma de modo evidente ao longo desses anos e se materializa nessa exposição. Em 2006, o trabalho já se apresentara em diversas instalações anteriores, inteligentes ocupações de espaços, nem sempre fáceis de serem resolvidas. Ana Holck pertence a uma espécie preciosa na arte contemporânea, particularmente cara à tradição brasileira: assimila o que há de melhor na tradição concreta e neoconcreta, reelabora-o e o transfigura para as exigências de questões poéticas atuais. Desse modo não se assiste à disjunção, desconexão, e mesmo ao conflito entre o moderno e o contemporâneo tão comum à cena chamada pós-moderna. Ao contrário, assistimos a uma transitividade, a um tráfego positivo da herança moderna reatualizada, transformada em arte do presente.
As implicações éticas dessa escolha estética são claras: a obra está livre das tentações da razão cínica fartamente explorada por estrelas do mundo da arte em nossos dias. Estamos também longe das explorações dos Casulos (1959), Bichos(década de 1960) e Trepantes (década de 1960) de Lygia Clark (1920-1988), dos cortes e dobras de Amilcar de Castro (1920-2002), do entrecruzamento de planos em cores de Franz Weissmann (1911-2005). No presente, a escultura brasileira contemporânea guarda momentos privilegiados dessa herança em direções muito variadas como nas obras de Waltercio Caldas, Iole de Freitas, Carmela Gross, José Resende, Tunga e nas instalações de Cildo Meireles. A estecorpus vieram se acrescentar recentemente as investigações no espaço tão diferentes quanto às de Ernesto Neto, Carla Guagliardi e Ana Holck.
A obra de Ana Holck sempre dialogou com o espaço arquitetônico e urbano. Mais que um diálogo ou uma simples conversa, os elementos da arquitetura e mesmo construções inteiras são evocadas poeticamente pelo léxico da artista que se intensifica nos títulos. Depois dos Elevados, das Pontes, das Passarelas e tantos outros convites à arquitetura e à cidade temos agora as esculturas Cruzamentos e Torres e uma novidade na obra: a exploração da gravura em metal na série Perimetrais.
Há uma torção do horizonte nos Cruzamentos e uma evidente verticalidade nas Torres. Está clara nas obras Torresuma subversão do ideal urbano de proteção: os elementos que compõem a obra são onipresentes nas cidades brasileiras como módulo de cerca de segurança para propriedades públicas e particulares. Têm uma dimensão e configuração calculadas para oferecer obstáculo ao corpo humano. São suportes atravessados por arame farpado com a parte mais alta inclinada em 45° para o interior do território a ser protegido; o módulo utilizado nas Torres está saturado de significados. Agora, engenhosamente agrupados em três elementos, envolvidos por cintas de aço, com sua projeção em ângulo apontada para o exterior tornam-se, digamos, elegantes, mas não perdem a memória de sua origem: o concreto aparente e sua presença bruta, bem como os furos para serem atravessados pelo arame farpado, não foram maquiados. O ideal construtivista e sua aspiração a um esperanto visual impediam uma importação de elementos do cotidiano tão comum nas obras pop. Desse modo, as Torres de Ana Holck trazem no seu interior uma manobra pop para realizar uma obra com fortes laços na tradição construtiva. O movimento estético, sem aviltar a origem de seus elementos, transforma-os em momento poético que vive uma dupla tensão: aquela física que os mantém em pé e aquela da presença subvertida do módulo destinado a proteger propriedades. É possível que sua beleza esteja nesse encontro da solução formal com a própria história do módulo que a constitui.
A presença da arquitetura nos Cruzamentos se encontra imantada pelos títulos; sem eles veríamos esculturas que se projetam no espaço a partir do suporte mais tradicional das obras de arte – as paredes. Todas são construídas a partir da tensão exercida pelo material em seus pontos de fixação e pelos fios de aço que contribuem para a estruturação do trabalho nos contrapesos cilíndricos dos corpos de prova* de concreto. Agora nenhum elemento é gratuito, todos agem, não apenas visualmente como nas primeiras Passarelas que já possuíam uma requintada forma, para vir compor o contraste entre tensões físicas invisíveis e sua presença nos materiais: a tensão do arco de aço e sua corporeidade evidente versus a tensão dos fios que desafiam o corpo com seus traços que desenham o vazio. A escala dessas esculturas está exata, mas nada impede que num desdobramento posterior venham a assumir uma escala pública e ir para um muro da cidade.
Como se não bastassem as Torres e os Cruzamentos, a artista inaugurou uma nova investigação na série de gravurasPerimetrais. Aqui o ponto de partida são os elementos estruturais que sustentam uma conhecida pista elevada de alta velocidade que contorna o centro do Rio de Janeiro desde o aeroporto Santos Dumont até o início da Avenida Brasil e da ponte Rio-Niterói. Encontra-se nos planos de reurbanização do centro e do cais do porto da cidade sua demolição. O que Ana revela nas suas gravuras ao isolar pilares e vigas de sustentação é uma geometria contemporânea que se encontra camuflada pela movimentada vida urbana. Estes elementos isolados no papel, cuidadosamente selecionados e recortados, manifestam no plano o mesmo rigor que sempre esteve na regência dos trabalhos da artista: fieis ao seu léxico, permitem-nos agora fruir sobre a superfície do papel a arquitetura única de Ana Holck, aquela que injeta num cuidadoso jogo de tensões poesia onde só existe a banalidade e o bruto cotidiano.

* Corpos de prova são amostras de concreto destinadas à realização de testes de tração e resistência do material em uma construção