Ao longo da primeira metade do século passado, vários movimentos artísticos contestaram os valores da tradição e decretaram a ruptura com o velho estatuto de obra de arte. As formas e as cores deixavam de se subordinar à aparência do mundo natural, para instituir-se como pensamento e linguagem autônoma, isto é, como construção estimulante e livre da experiência humana.

A variedade de faturas, suportes e linguagens expressivas que se desvelam no conjunto de objetos expostos na Matias Brotas Arte Contemporânea, reafirma essa liberdade concedida aos artistas de nosso tempo. Enquanto uns re-visitam a história da arte, para resgatar e atualizar determinadas gramáticas e processos pictóricos, outros deslocam imagens, personagens e idéias que vão buscar na literatura, no cinema, na filosofia, na psicanálise. Rearticulam ou recodificam tais empréstimos ou apropriações, em novos contextos, narrativas e associações de imagens, instaurando com eles ou a partir deles novos processos criativos e significativos.

As poéticas de Miro Soares e Lincoln Guimarães Dias, derivam do Expressionismo Abstrato. Embora adotem métodos e materiais diferenciados, ambos procuram estruturas formais espontâneas ou não premeditadas, que vão sendo ajustadas, ordenadas e transfiguradas, ao longo de um controlado processo de trabalho.

Miro Soares pinta sobre grandes suportes com café solúvel, matéria prima primordial a seu processo expressivo. O pigmento natural é lançado em gestos vigorosos sobre a tela esticada no solo, em camadas ralas e densas. O maior adensamento da matéria produz tons soturnos, potencializados por instigantes texturas e rugosidades. Nas áreas onde a matéria é menos espessa, surgem transparências e efeitos luminosos, que instigam a imaginação e desafiam o olhar configurador ou icônico do observador.

O processo pictórico de Lincoln Dias não dispensa os materiais tradicionais: tinta acrílica e pincéis de cabos longos. Recorrendo a gestos amplos e salpicados de tinta preta e rala, escritura as formas e traços seminais, permitindo, ao mesmo tempo, que a matéria escorra e deslize fluente sobre o suporte, para gerar linhas espontâneas ou imprevisíveis. A persistência da configuração formal e a aparente insubordinação do gesto vão sendo controladas pelo artista, com pinceladas de tinta branca espessa. O soterramento de determinadas áreas das manchas escuras, faz surgir novas estruturas formais, enquanto que a sobreposição de cores dá origem a uma gama de tons neutros, também chamados de “cinzas cromáticos”, pelo autor.

A série Desenhos de Viagem, de autoria de Fernando Augusto, ratifica a mão treinada e a sensibilidade aguçada do desenhista compulsivo, cujo projeto poético imbrica aspectos da vida e da vivência. Escritura um naipe variado de imagens e estruturas visuais, que tanto são extraídas da memória, como registradas em andanças pela cidade ou durante viagens. O traço ágil da linha configuradora parece manter impregnado e pulsante o ritmo do tempo/pensamento. Amalgama frases/palavras e estruturas formais sem instituir uma hierarquia precisa entre figural e verbal. O resultado é um diário visual intimista, repleto de reminiscência da infância, desejos, afetos familiares, sonhos, que transbordam das formam e parecem deslizar pela superfície do papel.

Lara Felipe inspira-se na narrativa do filme de Carlos Saura, “Cría Cuervos” (1976) e em clássicos da literatura universal. Elege personagens, objetos e imagens, que são recriados e inseridos por ela em outros contextos. Associa e recodifica, nessa nova narrativa, objetos de diferentes naturezas, encontrados ao acaso ou colecionados como pequenas relíquias: gaiolas (abertas e fechadas), alçapão, objetos de vidro, páginas de livros (amassadas), pássaros, tecidos coloridos bordados, móveis antigos. Surge daí um conjunto de trabalhos de extrema delicadeza, coerência, originalidade e ousadia inventiva, que remete ao recôndito do universo feminino: sonhos, sentimentos, aspirações e instaura a reflexão sobre determinados fantasmas do mundo adulto, por meio das polaridades: liberdade/aprisionamento, consciente/inconsciente, livre arbítrio/destino.

Transformando, reinventando, recodificando narrativas, personagens e códigos visuais – abstratos ou figurativos -, cada um destes quatro artistas capixabas engendra um universo poético singular, que reafirma o caráter polissêmico e híbrido da arte contemporânea.

por Almerinda Lopes