“Aquela mata” é o título da nova exposição individual do artista capixaba Raphael Bianco, que será aberta nesta quinta, dia 7 de agosto, na Galeria Matias Brotas Arte Contemporânea. A mostra, terceira individual do artista na galeria, conta com curadoria do carioca Waldir Barreto, professor de teoria da arte da UFES. A exposição é composta por 14 pinturas (acrílica e óxido de ferro sobre tela), além de quatro desenhos em caneta sobre papel 60% algodão.

Trabalhando com telas em grandes dimensões (1m x 2.4m cada) cobertas por óxido de ferro, pigmento natural que altera de forma imprecisa o resultado final da paleta de cores escolhida, Raphael explora o tema da mata e sua essência misteriosa através de uma pintura que oscila entre o figurativo e a abstração, em uma pesquisa que investiga os limites do olhar e da memória.

Em sua exposição anterior, “entre linhas”, de 2011, o artista iniciara essa investigação debruçando-se sobre horizontes compostos por três elementos frequentemente explorados na pintura de paisagem:
O oceano, as nuvens e a mata.
Agora, o ponto de partida imediato para a presente exposição foi uma inversão de um horizonte tradicional onde a mata situa-se no plano inferior e as nuvens no plano superior.
Uma mata que se ergue acima das nuvens, acima da neblina.

A partir dessa abordagem, Raphael passa a explorar então as possibilidades e os desafios que habitam o interior dessa mata nebulosa, com toda a desorientação espacial e temporal que afetam aqueles que decidem nela entrar. As obras, nas palavras do curador Waldir Barreto: “Um estupor cheio de murmúrios e vapores, cujo rastro palpável de tinta e gesto vislumbra o intangível.” Além das telas, a exposição conta também com desenhos de cavernas em caneta em uma única tonalidade de vermelho, mas que, devido à sutil diversidade de tons dos papéis escolhidos, aparentam ser executados em diferentes tons de tinta.

Raphael ainda ressalta que se interessa sempre por temas que lhe permitam explorar o lugar do homem no mundo, como seus medos e desejos. Imagens desfocadas, horizontes e elementos de paisagens são objeto constante de seu interesse e trabalho.

Curadoria: Waldir Barreto

Texto Crítico - Waldir Barreto
São famosas as queixas de Nicolas-Antoine Taunay diante dos “excessos” tropicais, que ele tanto buscou temperar. Dizia que faltavam as sombras e os tons. No entanto, faltava mesmo é enquadramento. Pois é, aqui, o bosque mata. Não sobrevive distância, horizonte, medida, moldura. Nossa paisagem não tem modus. Há algo de maravilhosamente impenetrável na natureza brasileira.

Ao contrário do mito arcadiano, cheio de pastores ortogonais e ninfas educadas, nossa anti-paisagem inculta, sensual e assimétrica não é gênero, senão generosa na variação dediferenças, ausências, suspeitas, silêncios, e tudo aquilo que interrompe a visão. A primeira dificuldade de um construtor de imagens é não conseguir dispor-se diante dela. Em meio a uma mata não é possível a “mobilização fenomenológica das aparências”, de que fala Baudrillard, apenas uma precária fenomenologia movente de tais aparências, já que elas sempre nos veem antes que as vejamos. Antes de organizá-las é necessário que organizemo-nos. É preciso que a visão, antes, veja a si mesma.

Neste sentido, da imagem cuja forma sempre escapa como objeto, a pintura de Raphael Bianco é tributária de uma tradição subjetivista que abrange desde a Escola Britânica (dos cadernos e estudos, não das pinturas, de Francis Towne, John Downman, William Turner, John Constable etc.), a qual herdara junto com os irmãos Grimm o anti-vitruvianismo flamengo, até os poderosos trípticos de Anselm Kiefer, apresentados em 2009 pela White Cube e em 2010 pela Gagosian.Por tanto, é também muito coerente à diversa, mas significativa, ascendência da enorme e variada difusão do chamado “neo-expressionismo alemão” sobre a pintura executada entre o Rio de Janeiro e o Espírito Santo desde a segunda metade dos anos 1980.

Para nós, o inóspito de um avesso imperceptível e sombrio está sempre veladamente presentealém ou aquém do verde verso exuberante.Em nossa mata habita o inabitável, seja na Atlântica do fotógrafo Araquém Alcântara, na Amazônica do pintor e indianista Miguel Penha,ou ainda nas têmperas e aquarelas que Thiago Rocha Pitta fez entre 2004 e 2005. Esta natureza misteriosa, cujo potencial simbólico e alegórico dilui matérias, exige um ritual. Raphael, por exemplo, propõe esse sutil arranjo de cores invisíveis se fundindo num preto e branco quase iridescente, cuja mescla de bruma, luz e desenho faz com que este aspecto incorpóreo, subjetivamente evocado, ganhe uma estranha solidez de difícil penetração, mas de prazeroso esforço. O convite é direto: um estupor cheio de murmúrios, silhuetas e vapores, cujo rastro palpável de tinta e gesto vislumbra o intangível.

A quem se prestar, então, Raphael impede que a visão se constitua como forma, ou seja, como conceito (paisagem), conservando-a como imagem, puro produto da imaginação (pintura). Para tanto, uma alternância entre uma estratégia figurativa (ótica e “impressionista”) e uma abstrata (imaginativa e “expressionista”) constitui o princípio metodológico da dinâmica entrerevelação e ocultamento, construção e dissolução,foco e difusão, translucidez e opacidade,fixidez e movimento, interior e exterior, afeto e ameaça. Toda esta sístole e diástole sustenta a narrativa dramatúrgica e elusiva de uma racionalidade espiritual, como essa praticada pelos alquimistas, em que o secular conspira pelosagrado.Afinal de contas, nenhuma pintura é somente pintura.Uma pintura não mostra, faz ver.

Waldir Barreto

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Texto Crítico - Raphael Bianco
Após tantos anos de sumiço, uma desconhecida de infância parece enfim ter feito as pazes com minha memória. Sim. Acabo de ser surpreendido neste exato momento por sua visita desconcertante.
Quem diria.
Ela: a mata. Aquela.
Noturna, clandestina, à margem de um animado jardim em festa.
Isso mesmo. Uma mata à espreita, ao fim de um belo gramado, invadido como de costume naquelas ocasiões por um verdadeiro ciclone mirim, rodopiando em transe entre mesas e bandejas indefesas.Refugiada, fronteiriça, a um continente de distância daquela alegria furiosa para a qual sequer fora convidada, lá atrás, bem quieta ela reinava. O fundo da noite era só dela.
Mesmo ali, de castigo, refém de todo aquele desespero sonoro, pude ouvir seu silêncio. Sólido. Absoluto. Guardião supremo de segredos e mistérios. Foi o bastante. De repente, fisgado, eu tinha o compromisso de comparecer a um encontro. Iniciei minha travessia. Alerta, o medo partiu comigo.
Sem perceber, passo a passo, acabei vencendo a beleza do gramado. Ela me aguardava imóvel. Possuía a rara virtude da paciência! Guiado por suas fiéis damas-da-noite, segui adiante.O medo ficou por ali, sonolento. Quando finalmente cheguei a sua porta, perdi meu derradeiro parceiro de jornada. Meio sem graça, o tempo parou.
Era apenas eu. E ela. Estávamos a sós.
Suavemente, ela suspendeu o silêncio. Não conseguia vê-la no escuro, é verdade. Mas isso não importava. Havia cumplicidade entre mim e aquela estranha. Eu entendia seu perfume. Sua música.
E, então, antes que eu pudesse reagir, ciumenta, vindo não sei de onde, a festa me arrastou às pressas de volta à segurança de seu jardim iluminado.
Tarde demais.
Aqui estamos. Novamente a sós.
Eu e ela.

Raphael Bianco

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