A galeria Matias Brotas arte contemporânea, com o objetivo de comemorar os dois anos de sua atuação no cenário artístico capixaba, trouxe ao seu espaço as mostras dos artistas Hélio Coelho e Vilar, num projeto de aproximação conceitual entre suas, aparentemente, tão distintas obras.

Ao trabalharem paralelamente questões relativas ao valor real das cédulas de dinheiro e ao valor ilusório do brilho metálico do ouro, a construção, bem como a montagem dos trabalhos, proporcionou ao percurso destes uma enveredação por especificidades respectivas às suas próprias poéticas, resultando em obras que ganharam força e representatividade na trajetória de cada uma delas, sem perder a unicidade do projeto.

Hélio Coelho, artista visual autodidata oriundo de Resplendor – MG, residente há muitos anos em Vila Velha – ES, tem trabalhado a vida toda em intermináveis desenhos feitos à noite. Desde criança, faz uso desta atividade para pegar no sono quando, ao adormecer, sonha e o sonho o leva para as remotas imagens, memórias de várias partes, que acabam aflorando-se em seus preciosos desenhos. Uma recriação de um universo muito particular, mas que de alguma forma torna-se reconhecível a todos. Ao pintar o “hall” de entrada da galeria, disponibiliza para o público um verdadeiro mergulho na sua pintura e no próprio e tão autêntico grafismo. Continuando e pintando toda a parede, cria um espaço de imersão que engolfa totalmente o corpo e o imaginário do observador, promovendo deste modo uma experiência no mínimo diferente com a pintura e o desenho. Nos outros trabalhos da exposição, Hélio utiliza outros suportes, alguns usuais, como tela, e outros nem tanto, como notas de dinheiro antigas, sem perder o tom expressivo de suas “garatujas” ou “aparições”, que vão cedendo elegantemente o espaço da galeria para os trabalhos de Vilar, uma referência da escultura capixaba.

De tal modo, o visitante deixa o campo da pintura e do desenho para vivenciar esculturas e instalações, que convidam a reflexões imaginativas que contornam essências e o ilusório. Vilar, com peças que suscitam bateias, com incrustações douradas, nos leva às divagações sobre o mundo do garimpo e da busca de riquezas, onde o homem se perde na teia dos intermináveis desejos de poder e riquezas. O uso proposital da pirita de ferro, ou “ouro dos tolos”, intenciona levar o visitante a pensar sobre a falsidade do brilho metálico que leva tantas pessoas ao engano. Acusa a busca incessante de riqueza como elemento emprobrecedor, que leva o ser humano ao sofrimento. Ao deixar o ferro de suas esculturas oxidarem naturalmente, revela a ausência de maquilagem sobre a superfície material e ainda, em se tratando de óxido de ferro, ferrugem, suscita-nos também a idéia de finitude das coisas materiais que tanto seduzem o homem de hoje.

por João Wesley de Souza