Shirley Paes Leme e José Bechara são um dos artistas brasileiros que participam da Bienalsur, primeira Bienal Internacional de Arte Contemporânea da América do Sul. Bechara apresenta sua obra “Nuvem para Meia Altura”, na Universidad Nacional de Tres de Febrero – UNTREF, em Buenos Aires, Argentina, uma instalação que utiliza vidros e traz uma espécie de nuvem feita de papel glissini amassado.

Já Shirley, convidada a participar da Bienal, expõe sua instalação ‘Viva Agua Vida’ no Centro Cultural Néstor Kirchner –CCK, em Buenos Aires, Argentina, o maior centro cultural da América Latina e o terceiro maior do mundo. A instalação faz referência à política de imigração da Argentina, ao edifício onde encontra-se o Centro Cultural Kirchner, e à disponibilidade de água potável no mundo.

A Argentina sempre teve, tradicionalmente, uma política aberta à recepção e acolhimento de imigrantes. Tanto é assim que, em 1914, mais de 60% da população de Buenos Aires era composta de imigrantes. O atual presidente Maurício Macri mudou isto radicalmente, assinando em 30 de janeiro de 2017 um decreto que altera a lei de imigração do país, colocando pesadas restrições à entrada de estrangeiros.

O prédio do Centro Cultural está localizado próximo ao porto, em um local onde antes havia um pântano, que foi aterrado com a expansão da cidade no século XIX no início do fluxo imigratório. Esse procedimento causou grande interferência no ecossistema da área, afetando a disponibilidade de águas subterrâneas.

Na instalação VIVA AGUA VIDA, o piso da galeria recebeu um espelho em toda a sua extensão e foram colocadas no teto 56 lâmpadas de neon contendo a palavra AGUA escrita de forma invertida nos 56 idiomas diferentes que eram falados pelos imigrantes originalmente.
O piso espelhado relembra a superfície de um rio ou de um lago, fazendo um contraponto com a área no entorno do edifício, hoje aterrada. As palavras AGUA do teto somente podem ser lidas corretamente quando se olha para baixo, para o fundo do poço. As lâmpadas de neon apagam-se de tempos em tempos e voltam a se acender após alguns segundos, de maneira alternada, levando a uma reflexão sobre a falta de água potável em diversas regiões do planeta, hoje e no futuro.

Organizada pela Universidade Nacional de Tres de Febrero (Untref), da Argentina, a Bienalsur acontece simultaneamente em 32 cidades espalhadas por 16 países, e realiza cerca de 100 exposições. A Bienalsur se propõe a propagar a diversidade das artes de todo o mundo pela América Latina e tem como diferencial a integração simultânea de sua programação com diferentes espaços pelo continente sul-americano, ao mesmo tempo em que dá protagonismo ao ambiente universitário como espaço de debate e divulgação artística.

No Brasil, a Bienalsur está em São Paulo, no Memorial da América Latina, a Casa do Povo e o Museu de Arte Contemporânea de Sorocaba. Mas pelo restante do país, pode-se conferir a mostra em lugares como a Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, a Universidade Federal de Santa Maria, assim como a Central do Brasil e Fundação Getúlio Vargas, ambas no Rio de Janeiro.